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Sensibilidade e racionalismo em Firmin, de Sam Savage

O rato Firmin, “morador ilegal, vagabundo, vadio, pedante, voyeur, roedor de livros, sonhador ridículo, mentiroso, charlatão e pervertido“, nasceu sob as páginas de Finnegans Wake, de James Royce. Diferente de seus irmãos – e fisicamente mais fraco do que todos eles – Firmin raciocina. Filho de uma ratazana bêbada, começou a roer páginas de livros que encontrava no porão da livraria onde morava com sua família para não morrer de fome.

Ele encontra nas páginas dos livros e nas telas do cinema local, seus verdadeiros amores e suas mais profundas crises. Um rato, em sua forma física, mas um ser humano em complexidade. Fã de Ginger Rogers, nutre por ela um amor platônico enquanto sonha ser Fred Astaire.

Lia Byron enquanto ficava deprimido, mudava seu nome para Heathcliff, e aprendia então a ocultar seu coração partido. Firmin tenta se comunicar com os seres humanos, e quer ser amado da mesma forma que ama nossa espécie. O rato tem mais problemas emocionais do que eu ousaria listar, beirando uma crise de identidade permanente.

Devorava, no começo rudemente, como numa orgia, sem foco definido, como um porco – para mim dava na mesma mordiscar pedaços de Faulkner ou de Flaubert -, embora logo tenha começado a notar sutis diferenças. Percebi, primeiro, que cada livro tinha um gosto diferente – doce, amargo, azedo, doce-amargo, rançoso, salgado, ácido. Notei também que cada sabor – e, com o passar do tempo a minha sensibilidade se tornando mais apurada, o sabor de cada página, de cada frase e, ao fim, de cada palavra – trazia consigo uma carga de imagens, representações mentais de coisas sobre as quais eu não sabia nada, devido à minha muito limitada experiência com o chamado mundo real: arranha-céus, portos, cavalos, canibais, uma árvore florida, uma cama desarrumada (…)

Para os que amam a literatura, o trecho acima explica o que essa arte significa para nós. Um grande escape para o mundo em que vivemos, cuja porta se abre ao saborear cada palavra bem colocada, cada diálogo bem estruturado, cada página virada.

O escritor, Sam Savage, nos coloca ao lado de Firmin, nos faz sentir o que ele sente e olhar com seus pequenos olhos o que acontece no mundo. E faz com que a gente se sinta impotente assim como Firmin, diante das maldades do mesmo mundo que compartilhamos. Uma leitura saudável e altamente recomendada.

Ficha Técnica

Título: Firmin
Autor: Sam Savage
Editora: Planeta
Gênero: Literatura Estrangeira
Páginas: 244

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