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Archive for the ‘Livros’ Category

O Corcunda de Notre Dame, a obra de Victor Hugo

corcunda notre dame, victor hugo, clássicos literaturaVictor Hugo é autor de duas das obras mais conhecidas da humanidade: Os Miseráveis (que ganhou adaptação para os cinemas em um musical estrelado por Anne Hathaway e Hugh Jackmann) e O Corcunda de Notre Dame, uma das minhas histórias favoritas. Ambas foram escritas com esmero pelo francês, e se tornaram clássicos não apenas pela história, mas também pelos conflitos profundos que refletiam.

Para quem ainda não teve a oportunidade de ler, aqui vai um resumo de O Corcunda de Notre Dame. Na obra, personagens de todas as camadas sociais de Paris em 1482 se cruzam nas ruas da mais famosa catedral gótica de toda a Europa: gente do clero, senhores de poder, ciganos, mendigos e prostitutas. Fazem parte desta época as festas esplêndidas, as execuções públicas e as revoltas populares.

Neste cenário, temos a cigana Esmeralda, uma jovem que dança na praça da Catedral de Notre Dame e perturba a razão dos homens mais fiéis com sua beleza avassaladora. Motivado pelo medo de sucumbir à tentação, o arquidiácono Claude Frollo pede que seu sineiro, o medonho Quasímodo, rapte a moça, mas ele acaba se apaixonando por ela. Ela, no entanto, é salva pelo capitão dos arqueiros reais, Phoebus, que se sente igualmente atraído pela cigana. E assim nasce um dos mais tristes e belos romances da literatura.

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– Você sabe o que é a amizade? – perguntou.
– Sim – respondeu a cigana – É ser irmão e irmã, duas almas que se tocam sem se confundir, os dois dedos da mão.
– E o amor? – prosseguiu Gringoire.
– Oh! O amor! – disse ela, e sua voz tremia, o olho faiscava. – É ser dois e ser apenas um. Um homem e uma mulher que se fundem num anjo. É o céu.

Quasímodo é um homem de feições deformadas e membros retorcidos, que deseja conhecer o que existe fora da Catedral, mas é constantemente atormentado pela sua própria aparência e pelos julgamentos de Frollo, que o considera um monstro e o trata como escravo, já que fez a bondade de adotá-lo quando criança, quando “até a sua própria mãe o rejeitou”. Ainda assim, Quasímodo é sensível à beleza e vê em Esmeralda seu amor perfeito: ambos são solitários e deslocados da sociedade, cada um do seu jeito.

Em O Corcunda de Notre Dame, Victor Hugo eterniza amores impossíveis e monta um retrato de uma sociedade que julga de acordo com seus interesses e acredita cegamente em sua Igreja. Ele aproveita a figura de Quasímodo para falar sobre a dificuldade de conviver e aceitar as diferenças entre as pessoas e usa as demais figuras masculinas para representar a ambição e avareza que circundam os homens de poder.

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“Ali está tudo o que amei.”

Com maestria, o autor nos apresenta uma série de situações que nos emocionam e nos envolvem na luta pelo amor de Quasímodo ou pela danação dos que são déspotas, cruéis e ardilosos – com ele ou uns com os outros. É uma obra sensível e admirável. Não preciso nem dizer que é leitura obrigatória para quem admira clássicos da literatura.

Ficha Técnica

Título: O Corcunda de Notre Dame (Notre-Dame de Paris)
Autor: Victor Hugo
Ano: 1831
Editora: Leya (Coleção Eternamente Clássicos)
Páginas: 472

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Livro “Cartas do Papai Noel” reúne cartas de Tolkien para seus filhos

capa livro cartas do papai noelPara os filhos de Tolkien, o Natal não era apenas no único dia em que suas meias na lareira eram recheadas de presentes. A cada ano, Papai Noel lhes escrevia cartas (às vezes uma, às vezes três) onde relatava os acontecimentos mais recentes do Polo Norte, sempre acompanhado de desenhos.

A primeira delas chegou em 1920, quando o primeiro filho de Tolkien, John, tinha apenas 3 anos de idade. Por mais de 20 anos, durante a infância dos três outros filhos, Michael, Christopher e Priscilla, elas continuaram chegando.

Quando as novidades vinham cedo, era o carteiro quem trazia a carta, mas sempre havia um novo envelope na véspera de Natal – e as respostas das crianças desapareciam da lareira quando não havia ninguém por perto.

Ainda bem que os relógios não marcam a mesma hora no mundo todo, senão eu jamais conseguiria completar a ronda, embora na época em que minha magia é mais forte – no Natal – eu consiga encher cerca de mil meias por minuto, desde que tenha planejado tudo de antemão.

As primeiras cartas do Papai Noel eram muito curtas porque ele estava sempre ocupado com os presentes, e contava apenas com a ajuda do Urso Polar. Com o passar do tempo, aparecem outros ajudantes como os Elfos das Neves, Gnomos, Ursos das Cavernas e até os sobrinhos do Urso Polar.
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Bonequinha de Luxo, a obra de Truman Capote

bonequinha de luxo, truman capote, capa de livroBonequinha de Luxo foi celebrado da forma mais romântica que o cinema poderia fazer, em 1961, com Audrey Hepburn imortalizando Holly Golightly. O livro que deu origem ao filme é um dos grandes momentos da carreira de Truman Capote. É audacioso para a época – fala de prostituição, homossexualismo, drogas e ações sem moral.

Capote construiu uma Holly sedutora, pé no chão, ingênua e desligada de tudo ao seu redor. Com 14 anos a moça fugiu de casa para tentar a sorte em Hollywood, onde conheceu O. J. Bermann, que lhe deu um trato com aulas de francês e boas maneiras. Antes de fazer um importante teste para sua carreira de atriz, Holly se mudou para Nova York, e lá permaneceu em um apartamento pequeno, cuja chave sempre esquecia e, por essa razão, incomodava os vizinhos.

Quando “a coisa fica preta” e ela se sente mal, sem saber o motivo, Holly gosta de ir até a Tiffany’s. Não pelas jóias – “embora os diamantes sejam outra história”, e Holly mal possa esperar para ter cabelos brancos e rugas para usar um belo colar de diamantes – mas pela tranquilidade do lugar.

“Mas descobri que o melhor pra mim é pegar um táxi e ir até a Tiffany’s. Eu me acalmo na hora com aquele silêncio e aquele orgulho no ar; nada de muito ruim poderia acontecer ali, não com tantos homens gentis de terno elegante e aquele cheiro de prata e carteira de crocodilo. Se eu encontrasse um lugar de verdade que me fizesse sentir do jeito que me sinto na Tiffany’s, eu compraria alguma mobília e daria um nome ao gato.”

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Um Homem de Sorte, livro de Nicholas Sparks

livro nicholas sparks, casal a luz do solUm Homem de Sorte é um romance de Nicholas Sparks, lançado em 2011. As 349 páginas são escritas de uma forma tão leve, que é possível ler o livro em um único dia. Parece que você está assistindo a um filme.

Quando Logan Thibault chega em Hampton e começa a trabalhar no canil gerenciado por Elizabeth Green e sua avó Nana, ele tinha consigo uma mochila com um saco de dormir e a companhia de seu pastor alemão bem treinado, Zeus. O rapaz saiu do Colorado e começou uma longa caminhada em direção a Hampton, que já durava cinco meses, andando cerca de 30km por dia, com um objetivo sólido: encontrar “E.”, a mulher da fotografia que ele achou quando esteve no Iraque, servindo seu país.

A fotografia servia, nas palavras do seu melhor amigo Victor, como um amuleto de sorte, e Logan precisava agradecer a ela, mesmo que não soubesse como. Ele não sabia se acreditava no poder da fotografia, mas soldados de guerra podem se apegar a essas coisas em tempos tão ruins. Fato é que Logan nunca sofreu nenhum ferimento grave na guerra, e retornou ao seu país depois de cinco anos, com honras do Exército. Não é como se Logan tivesse se apaixonado pela mulher da foto. Ele apenas se sentia em débito com ela.

No fim de uma de suas corridas, quando já avistava as tendas, começou a diminuir o ritmo. Nessa hora, o sol já começava a nascer no horizonte, espalhando seus raios dourados pela paisagem árida. Recuperava o fôlego com as mãos na cintura, quando viu o brilho pálido de uma fotografia, meio enterrada na areia. Parou para pegá-la e percebeu que a plastificação era barata, mas bem feita, provavelmente para protegê-la das intempéries. Tirou o pó para ver a imagem com mais nitidez e foi então que a viu pela primeira vez.

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As Vantagens de Ser Invisível, livro de Stephen Chbosky

Capa do livro, As Vantagens de Ser Invisível, Stephen ChboskyO livro As Vantagens de Ser Invisível é a estreia do roteirista norte-americano Stephen Chbosky e conta a história de Charlie, um adolescente que não sabe muito sobre a vida e vive entre a apatia e o entusiasmo ou, como ele diz, entre o “participar” e “não participar”.

Em casa, Charlie tem dificuldades de se relacionar com a família. Traumatizado com a morte da tia, quando ele ainda era muito novo, o menino passa o tempo lendo no seu quarto, sempre que pode. A reclusão se reflete na escola, até o dia em que conhece os veteranos Patrick e Sam. O protagonista começa então a “participar” da vida. As primeiras festas, o medo da rejeição, os primeiros encontros amorosos, a paixão por Sam, a homossexualidade de Patrick, a vontade de se “sentir infinito” quando está com quem gosta.

Abordando temas como amizade, depressão, sexo, rejeição e drogas, Chbosky constrói uma história rica, que permite que os personagens se desenvolvam na ótica de Charlie, sem caretices e superficialidades.

Eu quero que a Sam pare de gostar do Craig.

Agora eu acho que talvez você pense que é porque eu tenho ciúmes dela. Não é isso. Sinceramente. É só que Craig não a ouve quando ela fala. Não quero dizer que ele seja um cara ruim, porque não é. É só que ele sempre parece distraído.

É como se ele tirasse uma foto de Sam e a foto saísse linda. E ele pensasse que o motivo da foto sair bonita fosse ele fotografar bem. Se eu fizesse a foto, saberia que o único motivo da beleza é a própria Sam.

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Tourantino, por Jayne Jain Kennedy

* Este texto foi escrito em 1995 e foi reproduzido no livro “Quentin Tarantino”, de Paul A. Woods.

Los Angeles. A cidade dos Anjos. A Capital do Cinema Mundial. O centro da cirurgia plástica do universo. Uma cidade de um milhão de contradições. Para apreciar melhor aquele glamour corrompido de Los Angeles, uma cidade que Quentin Tarantino ama como apenas um nativo pode amar, esqueça as regulares turnês pelas casas de astros ou as outras incontáveis visitas oferecidas e faça um “tourantino” pelas lanchonetes, terrenos baldios, alojamentos e zonas de assassinato de Amor à Queima-Roupa, Cães de Aluguel e Pulp Fiction.

Cães de Aluguel, Reservoir Dogs, Madonna Speech

Comece com um café da manhã reforçado e várias doses de café no Pat and Lorraine’s, na 4720 Eagle Rock Boulevard, a lanchonete onde a maior parte dos personagens de Cães de Aluguel com codinome de cores comeu o que acabou sendo sua última refeição.

“Há clientes que vêm aqui porque viram o filme e gostam da comida, porque o serviço é bom”, diz a garçonete Leslie Harwood, que não viu Cães, mas insiste que as gorjetas sempre vêm, apesar da recusa apaixonada do Sr. Pink. Ela também nunca viu um grupo de homens de terno preto e gravata preta chegar em uma manhã, tagarelando sobre o conteúdo das letras das músicas de Madonna. Mas e se acontecer?

“Eu pensaria que é uma pegadinha para a TV”, ela brinca.

Enquanto estiver na vizinhança, certifique-se de verificar muitos dos lugares encharcados de sangue que se destacam em Cães de Aluguel. Depois que a filmagem foi completada, o necrotério desocupado que passou pelo depósito onde os Cães se reuniram depois do malsucedido roubo dos diamantes foi considerado um lugar para um programa de arte pós-escola. Jovens das áreas pobres teriam feito artesanato no mesmo local em que o Sr. Blonde fez sua mágica de corte e recorte. Quando o plano não deu certo, o prédio foi demolido.
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iWoz ou “A história do outro Steve da Apple”

Capa do livro iWozDesde seu falecimento em outubro desse ano, a biografia de Steve Jobs tem liderado a lista dos livros mais vendidos. Não é pra menos, afinal de contas, todo mundo quer conhecer a história de sucesso do indivíduo que inaugurou a era da informática pessoal.

Mas não é desse Steve que o livro aqui resenhado trata, e sim do outro Steve, o Wozniak, cofundador da Apple e, para muitos, o verdadeiro gênio por trás dessa fabulosa história. Apesar de não ser tão famoso quanto seu sócio, é seguro afirmar que sem o conhecimento e dedicação de Wozniak, não haveria uma Apple.

Escrito pelo próprio Wozniak em 2006 e intitulado de “iWoz – A verdadeira história da Apple segundo seu cofundador“, o livro é antes de tudo o relato de um engenheiro apaixonado por sua profissão. A saga de um precoce inventor, que desde muito jovem se dedicou à eletrônica e encontrou no desenvolvimento de projetos de computadores sua grande vocação e objetivo de vida. Vocação que culminou na concepção do Apple 1, o primeiro computador pessoal que podia ser facilmente operado por pessoas comuns, em suas casas.

O interesse de Wozniak pela eletrônica veio bem cedo. Incentivado pelo seu pai, aos 11 anos já montava kits de rádio amador. Na escola era um aluno aplicado em matérias como Matemática e Física. Com 13 anos, projetou e montou sozinho uma máquina de somar e subtrair, o que lhe rendeu o prêmio de destaque na feira de ciências da escola.Jobs e Wozniak

Jobs e Wozniak se conheceram por intermédio de um amigo em comum. Jobs era mais novo por isso estava quatro anos atrás de Wozniak no colégio. Mas o interesse mútuo na eletrônica juntou os dois garotos e uma amizade floresceu.

Já na faculdade, ele se tornou um dos primeiros hackers de telefone, ao construir uma pequena caixa azul que permitia fazer chamadas de longa distância, sem pagar por isso. Na verdade esse foi o primeiro “produto” que os 2 jovens comercializaram juntos. Mas essa empreitada não durou muito.

Wozniak era um engenheiro. E queria ser engenheiro por toda a vida, tanto que a conquista de um emprego na HP fora, até então, a realização da sua vida.  Alocado na divisão das famosas calculadoras, ele passava o dia fazendo o que mais gostava: projetar novos circuitos e funcionalidades para as máquinas de calcular. E à noite, se dedicava ao próprios protótipos eletrônicos.

Foi nesse período que ele começou a frequentar o Homebrew Computer Club. Um clube dedicado exclusivamente ao desenvolvimento de tecnologias de informática para as pessoas comuns. A revolução da informática começava ali, em reuniões semanais de entusiastas em uma garagem qualquer da Califórnia. Wozniak não tinha mais dúvidas, colocaria em prática o plano de construir seu próprio computador pessoal. Alguns meses depois, nascia o Apple 1.

Apple I

Um dos grandes talentos de Wozniak era o de desenvolver seus projetos com o menor número possível de chips e conexões e, mesmo assim, agregar funcionalidades inéditas a eles. Os Apple 1 e 2 foram os primeiros computadores a darem uma resposta visual ao usuário por serem conectáveis a qualquer aparelho de TV (que fazia o papel de monitor) e facilitarem a entrada de dados por meio de um teclado rudimentar.

Vale salientar que Wozniak não desenvolveu o que seria o Apple 1 por dinheiro, tanto que ele reportava todos os avanços do projeto nas reuniões do Homebrew Club. Era um projeto aberto. Seu objetivo era construir uma máquina em que ele pudesse rodar seus próprios programas e criar jogos. Era um hobby, algo em que ele trabalhava após o expediente na HP.

Foi Jobs quem percebeu que esse projeto era bom o bastante para ser produzido e vendido a entusiastas. Surgia então a Apple Computers. Wozniak acabou deixando a HP e Jobs conseguiu a primeira encomenda de 100 unidades. Iniciava-se aí a história de uma das mais incríveis companhias do Vale do Silício.

O ponto forte do livro é a forma como Wozniak apresenta conceitos de eletrônica e do universo da computação de forma leve e direta. Muitas vezes ele repete esses conceitos para facilitar o entendimento. A adaptação da obra poderia ter sido melhor executada. Muitos trechos foram traduzidos de forma literal, o que faz com que alguns termos e frases soem estranho. Mas nada que comprometa a leitura.

Apple IIWozniak deixa bem claro nos capítulos finais que resolveu escrever esse livro pra consertar algumas inverdades ditas sobre ele, sobre Jobs e sobre a Apple durante todos esses anos. Em alguns pontos chega a ser  bem enfático, quase soberbo.

Além de reclamar seus méritos e confessar falhas, ele nos envolve com a fantástica história do alvorecer da indústria que tomou de assalto o mundo, os lares e a vida das pessoas. Mudando para sempre os rumos do nosso relacionamento com a tecnologia.  E, saber que tudo isso surgiu do intelecto e do trabalho duro de um garoto que na infância gostava de desmontar máquinas para ver como elas funcionavam, dá um sabor todo especial a qualquer geek ou nerd.

Por isso, iWoz é leitura obrigatória para engenheiros eletrônicos, profissionais da área de computação, empreendedores e todo mundo que possua um sonho, um projeto, um objetivo maior. As lições de perseverança, dedicação, ética e humanidade que Wozniak nos ensina são inestimáveis:

Espero que você tenha tanta sorte quanto eu. O mundo precisa de inventores – grandes inventores. Você pode ser um. Se você ama o que faz e tiver disposto a fazer o que for necessário, está dentro de seu alcance. E valerá a pena cada minuto que gastar sozinho à noite, pensando e trabalhando no que você deseja projetar e fabricar. Valerá a pena, eu prometo.

Enfim, da próxima vez que você ouvir o nome da Apple, lembre-se que houve mais de um Steve envolvido nessa trama…

Ficha Técnica

Título: iWoz – A verdadeira história da Apple segundo seu cofundador
Autor: Steve Wozniak
Ano: 2010
Gênero: Biografia
Editora: Evora
Número de Páginas: 308

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Vida, por Keith Richards

Capa do livro Vida, Keith RichardsQual o valor real de uma medalha de ouro se não existisse a segunda colocação ? Veja bem, não falo sobre rivalidades ou faço pouco caso do segundo colocado, pelo contrário. Na minha opinião, a vida não teria graça alguma se não houvessem dificuldades ou motivos pelos quais devemos batalhar para conquistá-los. Por trás de toda conquista, sempre existirão personagens secundários, mas não menores do que o próprio vitorioso.

Não me refiro apenas ao gato que perseguia o rato ou o Coiote obstinado a alcançar o Papa Léguas. Falo também do China, Batatinha, Catatau e Babalu, que sempre livravam seus respectivos companheiros – Hong Kong Fu, Manda Chuva, Zé Colméia e Pepe Legal – de enrascadas. Mas se os exemplos anteriores não serviram de explicação para esse texto, então troco todos por apenas um nome: Keith Richards.

Em “Vida”, biografia escrita pelo próprio músico, você conhecerá o homem por trás de todas as lendas. E posso adiantar, algumas delas são verdadeiras. Keith Richards escreve, em linhas soltas, destemidas e sem nenhum tipo de preconceito, sobre sua infância em Dartford e o interesse que adquiriu pela música através de seus avós, da primeira guitarra que sua mãe lhe deu e sobre seus músicos favoritos – Billie Holiday, Louis Armstrong, Duke Ellington e Scotty Moore.

Suas histórias são fascinantes e, mesmo que sigam uma linha de tempo, levam o leitor a diversos acontecimentos do seu passado sem tornar a leitura confusa ou sem nexo. Keith quer nos fazer conhecê-lo bem, quase torná-lo um amigo de anos, até que possa nos apresentar Mike Jagger, Ronnie Wood e Charlie Watts. Ele nos faz entender sua paixão pela música e trilhar pelos seus mesmos passos até os Rolling Stones.

“Essa é minha vida. Acredite se quiser, eu não esqueci de nada.”

Eu diria que, como em sua guitarra, Keith afinou as palavras em sua escrita de uma maneira própria. Modificada, não distorcida. Intrigante ao seu modo, mas sem deixar a sonoridade ferir nossos ouvidos. Direto, realista e transparente. Ame ou odeie, a verdade está escrita em todas suas páginas.

“Mas se você quer chegar ao alto, precisa começar de baixo, do mesmo jeito que tudo mais. Como gerenciar um puteiro.”

Escritor, compositor e pirata. Keith Richards não é apenas um músico, artista ou guitarrista por trás de uma banda. Ele é escoteiro, amante do róque, fã apaixonado, ex-viciado e possuí uma relação de amor/ódio com o vocalista da sua própria banda. Keef – como sua mãe costumava lhe chamar – é a concretização de um sonho que se tornou realidade. E diferente dos Beatles, esse sonho ainda não acabou.

“Você tem os Beatles. Mamães e papais amam os caras. Mas você deixaria sua filha se casar com uma coisa daquelas ?”

Ficha Técnica

Título: Vida
Autor: Keith Richards
Editora: Globo
Ano: 2010
Gênero: Biografia
Número de páginas: 672

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Sensibilidade e racionalismo em Firmin, de Sam Savage

O rato Firmin, “morador ilegal, vagabundo, vadio, pedante, voyeur, roedor de livros, sonhador ridículo, mentiroso, charlatão e pervertido“, nasceu sob as páginas de Finnegans Wake, de James Royce. Diferente de seus irmãos – e fisicamente mais fraco do que todos eles – Firmin raciocina. Filho de uma ratazana bêbada, começou a roer páginas de livros que encontrava no porão da livraria onde morava com sua família para não morrer de fome.

Ele encontra nas páginas dos livros e nas telas do cinema local, seus verdadeiros amores e suas mais profundas crises. Um rato, em sua forma física, mas um ser humano em complexidade. Fã de Ginger Rogers, nutre por ela um amor platônico enquanto sonha ser Fred Astaire.

Lia Byron enquanto ficava deprimido, mudava seu nome para Heathcliff, e aprendia então a ocultar seu coração partido. Firmin tenta se comunicar com os seres humanos, e quer ser amado da mesma forma que ama nossa espécie. O rato tem mais problemas emocionais do que eu ousaria listar, beirando uma crise de identidade permanente.

Devorava, no começo rudemente, como numa orgia, sem foco definido, como um porco – para mim dava na mesma mordiscar pedaços de Faulkner ou de Flaubert -, embora logo tenha começado a notar sutis diferenças. Percebi, primeiro, que cada livro tinha um gosto diferente – doce, amargo, azedo, doce-amargo, rançoso, salgado, ácido. Notei também que cada sabor – e, com o passar do tempo a minha sensibilidade se tornando mais apurada, o sabor de cada página, de cada frase e, ao fim, de cada palavra – trazia consigo uma carga de imagens, representações mentais de coisas sobre as quais eu não sabia nada, devido à minha muito limitada experiência com o chamado mundo real: arranha-céus, portos, cavalos, canibais, uma árvore florida, uma cama desarrumada (…)

Para os que amam a literatura, o trecho acima explica o que essa arte significa para nós. Um grande escape para o mundo em que vivemos, cuja porta se abre ao saborear cada palavra bem colocada, cada diálogo bem estruturado, cada página virada.

O escritor, Sam Savage, nos coloca ao lado de Firmin, nos faz sentir o que ele sente e olhar com seus pequenos olhos o que acontece no mundo. E faz com que a gente se sinta impotente assim como Firmin, diante das maldades do mesmo mundo que compartilhamos. Uma leitura saudável e altamente recomendada.

Ficha Técnica

Título: Firmin
Autor: Sam Savage
Editora: Planeta
Gênero: Literatura Estrangeira
Páginas: 244

Livro Contos de Vampiros reúne 14 histórias clássicas

Organizar um livro de contos de vampiros pode parecer fácil à primeira vista, mas é uma árdua tarefa. É preciso separar o joio do trigo e, como os vampiros sempre estiveram presentes no imaginário popular, tem muita história pra ler sobre estes seres noturnos.

Flávio Moreira da Costa reúne em um adorável pocket, 14 narrativas clássicas sobre vampiros, trazendo à público até mesmo o primeiro conto oficial.

O antologista equilibra, nesta obra, contos de diferentes épocas e países e mostra como o sugador de sangue pode assumir diferentes formas e fazer o leitor se apaixonar por todas elas. Seja como o impenetrável Klatka do pioneiro O Estranho Misterioso, escrito por um anônimo alemão do século XIX; seja como a apaixonada Clarimunda em A Morta Apaixonada, de Théophile Gautier; seja como uma vizinha cheia de histórias horripilantes sobre si, como em Luella Miller, de Mary Eleanor Wilkins-Freeman. Ou então, na pele da apaixonante e vibrante Carmilla, de longe meu conto favorito, escrito por Sheridan Le Fanu. Para os fãs do jeito-Bram-Stoker-de-escrever, o livro traz um capítulo inédito não incluso na versão final da obra do escritor, chamado O Hóspede de Drácula.

Se eu pudesse dar algum pitaco na construção deste livro de vampiros, pediria ao antologista que organizasse os contos de vampiros em ordem cronológica. Seria muito mais agradável para nós, leitores, perceber a evolução da escrita sob esta ótica. Afinal, se “no começo” o vampiro era tão impenetrável como Klatka, em que ponto essa figura se tornou uma animada dama como Clarimunda?

Prometo fazer um Top 10 com os melhores contos de vampiros dessa pequena antologia, que me fez suspirar com a beleza de sua escrita e o poder de seus personagens. É difícil-quase-impossível achar esse livrinho em papel (ganhei o meu do @sammynewton), então deixo abaixo a relação dos contos do livro com links para download ou para ler as histórias online.

Contos de vampiros que compõem a antologia

O Estranho Misterioso, Desconhecido
– Carmilla, Sheridan Le Fanu
– Berenice, Edgar Allan Poe
– O Vampiro, John Polidori
– A Boa Senhora Ducayne, Mary Elizabeth Braddon
– O Hóspede de Drácula (o capítulo inédito da obra final), Bram Stoker
– A Morta Apaixonada, Théophile Gautier
– Luella Miller, Mary Eleanor Wilkins-Freeman
– Porque o sangue é a vida, Francis Marion Crawford
– O Conde Magnus, Montagne Rhodes James
– O Quarto na Torre, Edward Frederic Benson
– O Vampiro, Horacio Quiroga
– O Vampiro da Granja Croglin, Augustus Hare
– A Família do Vourdalak, Alexei Tolstoi

Ficha Técnica

Título: Contos de Vampiros – 14 clássicos escolhidos
Organização: Flávio Moreira da Costa
Ano: 2009
Gênero: Gothic Novel, Clássicos
Editora: Agir
Número de Páginas: 437

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